Fábio Roberto / Psicólogo Clínico

Adolescência: Um Universo a Ser Compreendido

07 de Abril de 2026
Psicologia & Cultura · ABC Psicognitivo


Talvez uma das coisas mais difíceis sobre a adolescência seja tentar entendê-la enquanto ela está acontecendo.

É um período em que muitas coisas parecem acontecer ao mesmo tempo. O corpo muda, as relações se transformam, as amizades ganham novos significados e a vontade de conquistar mais autonomia começa a ocupar um espaço diferente dentro da família. Ao mesmo tempo, surgem dúvidas sobre pertencimento, aparência, relacionamentos, escolhas e sobre a própria identidade.

É como se o adolescente estivesse tentando descobrir quem é enquanto ainda está deixando para trás algumas das referências que tinha sobre si mesmo.

Por isso, talvez seja simplista enxergar a adolescência apenas como uma fase de rebeldia, conflitos ou mudanças hormonais. Existe uma pessoa tentando se encontrar no meio de tantas transformações, muitas delas difíceis de explicar até para quem está vivendo.

E talvez uma das perguntas que começam a aparecer nesse período, ainda que nem sempre seja formulada dessa maneira, seja:  “Quem eu estou me tornando?”

Quando mudar faz parte da vida — e quando alguma coisa merece atenção

Nem toda mudança de comportamento durante a adolescência significa que existe um problema psicológico. Buscar mais independência, questionar opiniões dos pais, desejar maior privacidade e experimentar diferentes formas de se relacionar com o mundo podem fazer parte do próprio processo de desenvolvimento.

O que merece atenção é quando determinadas mudanças começam a produzir sofrimento significativo, interferem de maneira persistente na rotina ou representam uma alteração importante em relação à maneira como aquele adolescente costumava funcionar.

Uma mudança brusca no comportamento, no humor, nos relacionamentos ou na disposição para atividades que antes faziam parte da vida pode ser um sinal de que alguma coisa está acontecendo e merece ser compreendida.

Isso não significa que exista imediatamente uma explicação. Também não significa que seja possível identificar a causa apenas observando o comportamento.

Talvez seja justamente por isso que compreender seja mais importante do que simplesmente tentar corrigir aquilo que está aparecendo.

Às vezes, o comportamento chega antes das palavras

Um adolescente pode não dizer que está sofrendo. E isso nem sempre acontece porque não confia nos pais ou porque não quer conversar.

Às vezes, ele simplesmente não sabe como colocar em palavras aquilo que está acontecendo.

Pode existir vergonha, medo de julgamento, dificuldade para reconhecer o que está sentindo ou mesmo uma experiência emocional ainda muito confusa. Quando não há palavras disponíveis, o comportamento pode acabar expressando alguma coisa antes que o próprio adolescente consiga compreendê-la.

Um afastamento repentino dos amigos, uma irritabilidade que se tornou frequente, uma queda importante no rendimento escolar, mudanças acentuadas de humor, conflitos que passaram a acontecer constantemente ou preocupações que começam a ocupar grande parte da rotina podem chamar a atenção.

Nenhum desses sinais, isoladamente, permite concluir o que está acontecendo. Mas eles podem indicar que vale a pena olhar um pouco mais de perto.

A adolescência reúne diferentes fontes de pressão: relações sociais, pertencimento, imagem corporal, experiências afetivas, sexualidade, desempenho escolar e expectativas relacionadas ao futuro. Essas experiências podem adquirir uma importância muito grande para quem ainda está construindo maneiras de compreender a si mesmo e o mundo ao redor.

Às vezes, aquilo que parece apenas “mau comportamento” pode estar acompanhado de uma experiência que o adolescente ainda não conseguiu compartilhar.


O mundo começa a ficar maior

Uma das transformações importantes dessa fase é a ampliação do mundo para além da família. Os amigos passam a ocupar um espaço cada vez mais significativo. O pertencimento ganha outro peso, e a opinião dos colegas pode adquirir uma importância que, para um adulto, pode parecer difícil de compreender.

Mas, para quem está vivendo aquela experiência, talvez não pareça exagerado.

Ser aceito pode significar muito. Ser rejeitado também.

Situações envolvendo bullying, dificuldades de relacionamento, conflitos entre amigos ou mudanças no grupo social podem afetar a maneira como o adolescente percebe a si mesmo e o lugar que ocupa entre os outros.

Ao mesmo tempo, existe uma contradição própria desse período: o adolescente pode querer profundamente pertencer a um grupo e, ao mesmo tempo, sentir uma necessidade cada vez maior de se diferenciar.

Quer pertencer. Mas também quer descobrir quem é.

Entre a autonomia e a necessidade de cuidado

Talvez uma das maiores dificuldades para os pais seja perceber que o filho está deixando de ser criança sem ainda ter se tornado adulto.

A autonomia começa a ser reivindicada antes que todas as condições para exercê-la estejam desenvolvidas. O adolescente quer escolher, decidir, experimentar e ter suas próprias opiniões. Os pais, por outro lado, continuam responsáveis por oferecer proteção, estabelecer limites e tomar decisões que aquele jovem ainda não consegue assumir sozinho.

É fácil que esse encontro produza conflitos.

E nem todo conflito precisa ser eliminado. Questionar, discordar e buscar independência também podem fazer parte da construção da autonomia.

A questão aparece quando a relação começa a ser dominada por hostilidade, afastamento, sofrimento ou dificuldades que tornam cada conversa uma nova fonte de conflito.

Nesses momentos, talvez seja mais útil perguntar “o que está acontecendo nessa relação?” do que simplesmente tentar descobrir quem está certo.


Quando falar com alguém de fora pode ajudar

Para alguns adolescentes, conversar com os próprios pais sobre determinadas questões pode ser difícil. Isso não significa necessariamente falta de confiança ou ausência de vínculo.

Existem assuntos que podem ser mais fáceis de compartilhar com alguém que não está diretamente envolvido na situação.

A psicoterapia pode oferecer justamente esse espaço de escuta. Um lugar em que o adolescente possa falar sobre preocupações, medos, conflitos, relacionamentos, dúvidas e experiências que considere importantes, dentro de um processo conduzido de acordo com suas necessidades.

Isso também significa que a terapia não precisa começar com um adolescente disposto a contar tudo.

Aliás, muitas vezes não começa.

Pode existir silêncio, desconfiança, respostas curtas ou até resistência à ideia de estar ali. E isso não precisa ser entendido automaticamente como fracasso do processo. Antes de falar sobre aquilo que realmente incomoda, talvez seja necessário descobrir se aquele é um espaço em que vale a pena falar.

A construção do vínculo faz parte da própria terapia.

A terapia não precisa começar pelo problema

Existe uma expectativa de que, ao procurar um psicólogo, o adolescente precise chegar sabendo exatamente o que está acontecendo.

Nem sempre.

Às vezes, ele chega porque os pais perceberam uma mudança. Em outras situações, a escola chamou atenção para alguma dificuldade. Pode haver um acontecimento específico que motivou a procura por ajuda ou pode ser o próprio adolescente quem percebeu que não está conseguindo lidar sozinho com alguma coisa.

O ponto de partida pode ser diferente.

Ao longo do processo, o trabalho psicológico pode ajudar a compreender melhor o que está acontecendo, quais pensamentos e emoções estão envolvidos, quais comportamentos estão sendo mantidos e de que maneira as relações ao redor participam daquela experiência.

Por isso, a terapia não precisa oferecer imediatamente uma explicação.

Pode começar ajudando a construir uma.

E os pais? Eles também fazem parte da história

Embora a terapia individual seja um espaço destinado ao adolescente, os pais continuam fazendo parte do contexto em que ele vive.

Informações sobre a história familiar, o desenvolvimento e mudanças percebidas no comportamento podem contribuir para a compreensão da situação. Também pode ser necessário estabelecer momentos de contato com os responsáveis durante o acompanhamento, especialmente quando determinadas informações ou decisões precisam ser discutidas.

Mas existe uma diferença importante entre participar do processo e transformar a terapia em uma investigação sobre o filho.

O adolescente precisa perceber que existe ali um espaço em que sua experiência pode ser considerada com seriedade.

Isso não significa ausência de limites ou que tudo precise permanecer em segredo. Significa compreender que a construção de uma relação terapêutica envolve cuidado com aquilo que é compartilhado e com a maneira como as informações são utilizadas.

A participação dos pais pode ser importante sem retirar do adolescente o lugar de sujeito dentro do próprio processo.

Nem sempre a terapia precisa acontecer apenas entre duas pessoas

Embora a psicoterapia individual seja uma possibilidade bastante conhecida, existem outras formas de acompanhamento que podem fazer sentido dependendo da situação.

A terapia em grupo, por exemplo, pode oferecer ao adolescente a oportunidade de perceber que determinadas dificuldades não são exclusivamente suas. Encontrar outras pessoas vivendo experiências semelhantes pode diminuir a sensação de isolamento e favorecer novas formas de interação.

A terapia familiar pode ser considerada quando as relações familiares estão diretamente envolvidas no sofrimento ou nos conflitos apresentados. Nesse caso, o foco deixa de estar somente no adolescente e passa a considerar também a maneira como as relações estão acontecendo ao redor dele.

Por isso, não existe necessariamente um único formato de terapia para a adolescência.

Existe a necessidade de compreender qual proposta faz sentido para aquela pessoa e para aquela situação.

O que pode ser trabalhado na adolescência?

A terapia pode acompanhar diferentes questões que aparecem nessa fase: autoestima, relacionamentos, habilidades sociais, ansiedade, estresse, conflitos familiares, dificuldades relacionadas à escola, questões envolvendo sexualidade, escolhas sobre o futuro, mudanças de comportamento e dificuldades para lidar com as próprias emoções.

Mas talvez exista algo mais importante do que simplesmente listar problemas. A adolescência não precisa ser reduzida ao que está dando errado.

Também existe aquilo que está sendo descoberto. Novos interesses, valores, desejos, possibilidades e formas de enxergar a própria vida começam a ganhar espaço. A terapia pode acompanhar esse processo sem precisar transformar toda dificuldade em um diagnóstico ou toda dúvida em um problema a ser eliminado.

Às vezes, compreender uma dificuldade também significa compreender o que ela está revelando sobre aquela pessoa.

Quando a preocupação dos pais merece ser levada a sério

Uma das dificuldades de quem convive com adolescentes é distinguir uma mudança esperada de uma mudança que merece atenção.

Não existe uma lista capaz de responder isso sozinha. Cada adolescente possui uma história, uma maneira de funcionar e um contexto próprio.

Ainda assim, alterações persistentes ou muito intensas podem justificar uma avaliação. Mudanças importantes de humor ou comportamento, isolamento acentuado, sofrimento relacionado à escola ou às amizades, preocupações excessivas, dificuldades emocionais que começam a interferir na rotina ou transformações muito diferentes do funcionamento habitual podem ser motivos para procurar orientação profissional.

Buscar uma avaliação não significa afirmar que o adolescente tem um transtorno.

Pode significar apenas reconhecer que alguma coisa mudou e merece ser compreendida.

E talvez essa seja uma diferença importante: procurar ajuda não precisa começar pela certeza de que existe um problema. Pode começar simplesmente pela percepção de que alguma coisa mudou e merece ser olhada com mais cuidado.

Talvez o adolescente não precise de mais uma pessoa dizendo o que fazer

Adolescentes recebem muitas orientações.

Estude. Tenha responsabilidade. Pense no futuro. Escolha uma profissão. Tome cuidado. Escute seus pais. Não faça isso. Faça aquilo.

São orientações que, muitas vezes, fazem parte do cuidado e das responsabilidades dos adultos.

Mas, em meio a tantas vozes dizendo o que deveria ser feito, talvez um dos papéis de um espaço terapêutico seja oferecer algo diferente: um lugar onde seja possível pensar.

Pensar antes de decidir. Questionar algumas certezas. Compreender determinadas emoções. Perceber padrões. Considerar possibilidades.

Não para que o psicólogo escolha pelo adolescente, nem para substituir os pais ou dizer quem aquele jovem deve ser.

Mas para ajudá-lo a compreender melhor aquilo que está vivendo e, pouco a pouco, construir seus próprios recursos para lidar com as experiências que encontrará pelo caminho.


Crescer também é aprender a se compreender

Talvez a adolescência seja uma das primeiras fases em que percebemos, de maneira mais concreta, que não existe uma resposta pronta para a pergunta sobre quem somos.

Estamos mudando, experimentando, errando, reconsiderando. Nos aproximamos de algumas pessoas e nos afastamos de outras. 

Descobrimos aquilo que queremos e, algumas vezes, também aquilo que não queremos.

Nem tudo será tranquilo.
Nem todo conflito será um problema.
Nem toda mudança será sinal de sofrimento.

Mas algumas experiências podem se tornar difíceis demais para serem atravessadas sem ajuda. E reconhecer isso não diminui a autonomia de um adolescente. 

Talvez seja justamente uma maneira de respeitá-la.

Porque pedir ajuda também pode fazer parte de aprender a cuidar de si.

Talvez seja por isso que a terapia, na adolescência, não precise ser vista apenas como um lugar para resolver problemas. Pode ser também um espaço para compreender mudanças, organizar perguntas e encontrar palavras para aquilo que ainda não conseguiu ser dito.

Talvez seja por isso que algumas experiências precisem, antes de qualquer resposta, de algumas palavras. Não necessariamente para mudar o que aconteceu, mas para que possamos encontrar outra maneira de olhar para aquilo que sentimos.


Até Breve

Forte Abraço!